*Sugestão de música para ler esse texto:

Move By Yourself - Donavon Frankeireiter

Após oito dias perambulando pelo Parque Nacional Torres del Paine, na confortável e moderna recepção das instalações "Las Torres", eu anotava as últimas considerações sobre a viagem. Observando o cappuccino quente que saía da máquina, ponderava o desconforto e sofrimento que havia passado até chegar àquele aconchegante ambiente. 

É nesse local em que a maioria das pessoas iniciam e finalizam o trekking pelo parque. 

A atmosfera da recepção lembrou-me de um antigo seriado que passava na televisão. Ao avistar o avião se aproximar da "Ilha da Fantasia", o anão "Tatu" gritava para o chefe tocando um sino ensurdecedor:

- Patrão, o avião, o avião...

Em uma análise paralela, as pessoas que desciam do tão esperado ônibus (assim como as que desciam do avião na "Ilha da Fantasia") chegavam à recepção do parque ansiosas para se desligarem de suas rotinas e deixarem se entregar ao devaneio em um dos locais mais bonitos e impressionantes do planeta.

No dia 30 de novembro de 2016, com uma mochila de 60l e 18 kg de peso, contendo tudo o que eu necessitaria para comer, dormir e vestir por duas semanas dando a volta em torno do Parque, eu era um dos que desciam do ônibus em busca de meu devaneio e desligamento.

Teria que que seguir à risca o plano de minha progressão, tendo em vista o cronograma ajustado em função das reservas nos acampamentos.

Meses antes, confabulando a viagem, sabia que o clima seria minha maior preocupação. Sem previsões certeiras e mudanças inesperadas, chove, neva, faz sol e venta muito na região do parque. Portava comigo algumas camadas de roupas que eu julgava serem suficientes para minha estada. Contudo, percebi que estava equivocado no momento em que duas senhoras chilenas entraram no ônibus que fazia o trajeto entre Puerto Natales e a entrada do parque e, ao sentarem na poltrona da frente, uma disse para a outra:

- Dios mio Rosita, Que calor!

Fazia 12º C e eu morria de frio.

Apesar da natural insegurança que me assolava, tinha boas razões para seguir com meu plano; sabia o que deveria fazer e também o que evitar.

Lia, pela segunda vez, o livro de Joe Simpson (La Mort Suspendue), no qual o autor conta sua inacreditável trajetória para retornar ao acampamento após ter quebrado uma perna no topo de uma montanha (Siula Grande) no Peru. Chocado com a perseverança de Simpson para "retornar à vida", reparei o marcador de página que levava. Minha mãe o havia me dado ao embarcar para uma de minhas primeiras viagens para competir (muitos anos atrás). Em sua dedicatória, ela dizia: "Saiba, você pode alcançar tudo que você quiser, basta acreditar. Boa viagem, dê o melhor de você que conseguirá o melhor resultado. Confio em você."

Era o que eu precisava de ouvir!

Desembarquei na portaria do parque e logo avistei as imponentes e famosas torres de granito que se destacam em meio aos escombros de rochas e pedras. Hipnotizado pela grandeza daquelas estruturas naturais, caminhei calmamente até o ponto onde montaria minha pequena moradia de pano. Estava, então, instalado no Acampamento Central. Dali iniciaria no sentido anti-horário minha volta em torno do Parque Nacional Torres del Paine, percorrendo o circuito "O", com um total aproximado de 130 quilômetros.     

Ao final do dia 30/11, enquanto preparava minha primeira refeição, uma garota se aproximou e me perguntou de onde eu era e se gostaria de subir com um grupo ao mirante das Torres para ver o sol nascer lá de cima. A caminhada até esse ponto é parte da "procissão" realizada por quem deseja percorrer totalmente o tradicional trekking. Achei a ideia interessante e marcamos de nos encontrar às 00h30min. 

Fui me deitar bem cedo, mas não preguei os olhos por conta da chuva que não parava. No horário combinado, vesti algumas camadas de roupa e meu impermeável e fui conferir se havia alguém no local combinado. Para minha surpresa, lá se encontravam a israelense Zeeve e os norte-americanos Cori e Mat, este último vestindo uma ridícula ceroula estampada com flores e calçando um tênis de skate. Um verdadeiro anti-herói, levando-se em consideração o contexto em que nos encontrávamos. Seguimos, então, pela trilha que serpenteava montanha acima. Não víamos nada além de quatro metros à frente. 

Logo, eu e os americanos nos distanciamos da israelense. Não achei que ela corresse algum risco seguindo sozinha um pouco atrás de nós. Porém, em meio ao som do vento patagônico, enquanto seguia concentrado no foco de minha lanterna, ouvi um grito ensurdecedor:

- Guyyyyss, heeelp me. Guyyyyss.

Sem falar nada, despencamos os três na direção em que vínhamos a fim de socorrer a israelense do que pudesse ser. Eu só imaginava uma possibilidade: puma! 

Ao encontrá-la com os olhos arregalados e em choque, perguntei o que havia acontecido. Apontando para trás, ela respondeu que um puma a seguia. Explicou que vira os reflexos da luz de sua lanterna nos olhos do puma. Pedimos a ela que se acalmasse e seguimos os quatro juntos. A partir de então, eu só conseguia pensar no maldito puma! Olhando para retaguarda uma vez mais, reparamos os dois olhos refletidos vindo atrás de nós, ocasião em que Zeeve gritou:

- Oh my god. There it is guys, I've told you. 

Foi quando notei que o reflexo nada mais era que o facho da lanterna de outras duas pessoas subindo a trilha em direção ao mesmo mirante!  Caladinha e um pouco sem graça com o escândalo inútil, a israelense seguiu caminhando.

Chegamos às 04h00min no mirante das Torres, mas o dia só iria nascer às 05h00min, motivo pelo qual procuramos nos proteger do vento e da chuva embaixo de um grande bloco de pedra. 

Enquanto aguardávamos o alvorecer, dois ingleses juntaram-se a nós. A temperatura ambiente era de 5º C, mas com o vento a sensação térmica caíra para 0ºC. Não acreditei quando vi um deles de bermuda. Naquele desconforto, não havia muito o que conversar, mas os ingleses, com um típico sotaque carregado, iniciaram uma discussão:

- Hey mate, I'm fucking freezing up here.

- Yeah, me too. And I don't think this fucking weather is gonna change.

- Bloody rain!

- I'd rather be at the pub drinking a bloody beer.

- What the fuck we're doing here, then?

- Let´s get the hell out of here... 

E assim os ingleses se foram. Creio que para um "pub". 

A coloração do céu foi-se mudando e reparei que uma espessa névoa impossibilitaria qualquer chance de avistarmos as Torres. Não tardou muito para eu pensar em me juntar aos ingleses. E foi o que fizemos. Iniciamos a descida às 04:55min sem ter avistado as famosas Torres del Paine!

 
Com um baita frio e a chuva castigando sem trégua, cheguei exausto ao acampamento, onde cuidei de colocar minha última roupa seca e me jogar dentro do saco de dormir. Acordei horas depois com o moral devastado. Praticamente todas as minhas roupas estavam molhadas, o tempo estava péssimo, a previsão era ruim, suspeitava que minha comida não seria suficiente e, para piorar, sofria com uma enorme bolha no pé. 
Ainda me restava praticamente a volta inteira do parque, pois a subida ao mirante, de 23km ida-e-volta com 650m de desnível, fora "apenas" uma perna dentro do circuito "O". 
Cozinhei uma de minhas rações diárias e tentei ler um pouco. Estava péssimo. Um desânimo me ocupava a cabeça ali no principal acampamento do parque. Ver outras pessoas terminando uma árdua jornada que você está prestes a iniciar não é nada motivador. Já havia sentido isso em minha expedição ao Aconcágua. Minha vontade era acordar no dia seguinte, desmontar minha barraca e seguir para o conforto da cidade, tomar uma cerveja e dormir em uma cama quentinha. Por coincidência, lia a página em que Joe Simpson diz:
"Òu donc étaient passées cette motivation et cette passion à toute épreuve? 
Comment avais-je perdu ce sentiment d'invincibilité, 
cette confiance inébranlable de la jeunesse qui déborde de
testostérone et manque d'imagination?"
Joe Simpson - La Mort Suspendue
 
À tarde, uma discreta aparição do sol foi suficiente para secar minhas roupas. Mesmo assim, fui dormir desmotivado.
O dia 02 de dezembro amanheceu fechado, mas seco. Chequei meu relógio e percebi que havia dormido bastante. Já era meio dia. Preparei meu café e desmontei calmamente minha barraca. Sentia-me renovado. Organizei minha mochila, zerei o GPS, conferi o mapa e, decidido, dei continuidade ao trekking que havia planejado meses antes. 
 

Percorri quase 14 quilômetros até chegar ao Acampamento Serón. Nesse trecho, passei por dezenas de pessoas de todas as partes do mundo. Jovens, casais, adolescentes e até idosos. Um exemplo!

Próximo ao Acampamento, juntei-me a um jovem casal que caminhava em um bom ritmo. Era um alemão e uma indiana. Foi curioso ouvir os dois discutindo suas culturas e respectivas incompatibilidades. 

Num determinado momento da conversa, eles perguntaram a minha idade e de onde eu era. Respondi que era do Brasil e que tinha 42 anos. A jovem indiana, um pouco incrédula, virou-se para o alemão e sussurou:

- I didn't know people that age could trek this trails alone!   

Dei uma risada interna e segui me divertindo com os dois.

À noite, já em minha barraca, no relativo conforto de meu saco de dormir, escutava a algazarra que algumas jovens chilenas faziam no acampamento. Ao lado, um grupo de americanos exibia suas conquistas pessoais anteriores. Um pouco mais ao fundo, o alemão e a indiana discutiam quem levaria a barraca no dia seguinte. Uma verdadeira torre de Babel em meio às Torres del Paine!     

No dia seguinte (03/12/16), acordei cedo e logo arrumei as tralhas, pois seria o dia mais longo da viagem. Percorreria 18 quilômetros até o Acampamento Dickson e mais 11 até meu destino do dia, o Acampamento Los Perros. Já no início da trilha, encontrei o alemão e a indiana. Pelo que pude ver, o alemão acabou carregando a barraca e "otras cositas más"...  
Com um dia nublado e frio, segui em um bom ritmo. Caminhei trocando boas ideias com um chileno até chegar ao Acampamento Dickson, onde ele ficou. Devorei um pequeno lanche e segui rumo ao Acampamento Los Perros. A partir do Dickson, inicia-se a ascensão à parte mais alta do trekking (1200m, no passo John Gardner), ponto que eu planejava cruzar no dia seguinte, se o tempo permitisse. 
 

Às 19h30min, avistei o belo glaciar que marca as proximidades do Acampamento Los Perros. Estava bem cansado e com muito frio. Sentia-me sujo. Foi difícil aguentar, mas tive que tomar um banho nas gélidas águas do degelo.   Quando a noite caiu, consultei o termômetro: 5º C. 

Sozinho, embaixo de inúmeras camadas de roupa, eu tentava dormir, mas a dúvida em relação ao tempo no dia seguinte, quando deveria atravessar o passo, me deixava inquieto. Se o tempo não permitisse (muito vento e frio), eu seria obrigado a aguardar uma janela de tempo bom, o que atrasaria meu cronograma e diminuiria minhas reservas de comida. Sem contar que aquele era o acampamento mais frio do parque!

 

 

 

 

 

 

 

Consultei o mapa a fim de ver minha evolução e me espantei ao perceber que me encontrava no lado oposto às Torres. Era nítido. A linha imaginária riscada no terreno do parque por onde eu já havia passado formava um semi-círculo. Eu andara quilômetros sem perceber. A viagem atingira um ritmo próprio. As coisas estavam realmente fluindo...

 

 

 

 

Nublado e com pouco vento, o 04 de dezembro seria o meu quarto dia no parque. Iniciei minha ascensão rumo ao passo usando três camadas de roupa. 

Fazia frio, mas com 15 minutos de caminhada morro acima fui obrigado a tirar uma camada. Começava a sentir calor. Mais 30 minutos e mais uma camada. Com duas horas de subida e vestindo apenas uma camiseta, encontrava-me próximo ao passo (1200 metros), onde a exposição às condições climáticas me mostrou que era hora de vestir novamente as camadas retiradas. Tira casaco, põe casaco, tira casaco, põe casaco!

Quando cheguei à parte mais alta da travessia, o céu estava totalmente encoberto. Desse ponto eu havia calculado avistar o gigante glaciar Grey. Um pouco decepcionado em não poder ver nada, segui descendo em direção ao outro lado da montanha. 

Alguns metros abaixo, fui surpreendido por uma das visões mais espetaculares que tive na vida. À medida em que descia, as nuvens se dissipavam e o gigante glaciar aparecia. Sentia como se estivesse adentrando um outro mundo, um mundo em que a minha pequenez era escancaradamente notável. Parei, observei, suspirei, agradeci e murmurei: "Não somos nada mesmo!"              

 
Quanto mais eu descia, mais as nuvens se dissipavam e mais eu me espantava com o visual do glaciar. Já na parte coberta por vegetação, encontrei um chileno (Juan) que, também, admirava incrédulo o Grey em meio à copa das árvores. Continuamos a descida expondo nossas razões pessoais para estar ali. Após eu contar que conhecer o local era um desejo antigo, Juan disse que havia juntado uma grana, largado o trabalho e iria passar um tempo viajando pela América do Sul. Perguntei se havia tirado um ano sabático e ele respondeu ,negando:
- No. un año no. Cinco años! O más...
Sujeito interessante. Juan era arquiteto e aparentava não se importar com suas vestimentas surradas pela viagem que fazia. Garantia o sustento de seus "anõs sabáticos" construindo edificações com materiais naturais, como o adobe e o bambu. Tirei uma foto de Juan no meio da descida e segui rumo ao Acampamento Grey. Foi a primeira e última vez que o vi. Tento imaginar onde ele pode estar.
Do Acampamento Grey, eu teria apenas mais dois dias de caminhada até o ponto onde havia iniciado o trekking. Contudo, à noite, no acampamento, fui informado sobre a queda de uma ponte sobre um grande rio do parque.
 
Por conta disso, se eu quisesse finalizar o trekking completo, eu teria que pegar um catamarã no Acampamento Paina Grande e depois tomar um ônibus até o Acampamento Central (de onde eu havia iniciado cinco dias antes), e, de lá, fazer um bate-e-volta até o ponto onde a ponte caíra. Isso me custaria um dia de atraso. Meio abalado pela notícia, lembrei-me do desânimo que havia passado nos primeiros dias e de como uma boa noite de sono havia resolvido tudo.  
 
Dormi e, no dia seguinte, minha motivação estava intacta. Olhando o lado bom, o desvio "forçado" me proporcionou uma perspectiva diferente do parque. Do catamarã, rumo ao Acampamento Central, sob um céu azul tal qual o de Brasília na época da seca, eu clicava em minha máquina o impressionante contraste dos "Cuernos" com os tons de azul do céu e do lago Pehoé.  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aos 06 de dezembro, de volta ao acampamento Central, segui para o lado oposto que iniciara seis dias antes. Percorrendo a parte mais turística do parque, cruzei inúmeros "backpackers". Após ser declarado patrimônio da humanidade, o fluxo de turistas se tornou intenso no parque. 

Contabilizados 16 quilômetros, cheguei ao Acampamento Francês, onde montei minha barraca para minha última noite no parque. No dia seguinte, após visitar os famosos Vale Francês e Mirador Britânico, iria fazer o trajeto de volta até a entrada do parque e, finalmente, retornar à civilização". 

Porém, como havia chegado cedo ao acampamento e o dia estava belíssimo, resolvi não esperar o dia seguinte para subir até o mirador. Não queria correr o risco de pegar o tempo fechado. Com uma mochila de ataque contendo algumas barras de proteína e meio litro de água, subi leve e rápido até o mirante do Vale Francês. Seguindo por uma perfeita trilha em meio à típica vegetação da região, foi inevitável dar uma trotadinha morro acima. 

Lá em cima, onde a trilha acabava, havia alguns blocos de pedra de onde pude apreciar o surpreendente visual do vale. Inúmeras torres de pedra agrupadas em forma de uma ferradura delimitavam o Vale Britânico. Uma verdadeira obra da natureza.

Deitei-me sobre um platô de pedra aquecido pelo sol, que já se punha. Olhei ao meu redor e me dei conta de que estava completamente isolado de tudo, sozinho. Completamente extasiado, apreciava aquele belo ecossistema, do qual eu tinha plena consciência de que não fazia parte. 

O dia limpo, sem vento e de temperatura confortável mascarava a real condição da região. Creio que o clima na Patagônia concede alguns poucos momentos de recreio para nós. Ciente disso, agradeci mais uma vez por estar ali.  

 

 

 

De volta ao acampamento Francês, dormi um sono tranquilo. Eu estava completo, íntegro. A viagem estava quase no fim. Ao acordar, iria desmontar minhas tralhas pela última vez e seguir em direção ao Acampamento Central, onde eu entraria no tão esperado ônibus, finalizaria meu devaneio e retornaria para minha zona de conforto. Voltaria para a minha rotina. 

Que gratidão! 

Retornar é tão bom quanto partir.  

Cronograma:
01/12 - 1º dia  Camp. Central - Mirador Torres - Camp. Central 
Dist: 23 km
Tempo: 6h
Asc: 650m
 
02/12 - 2º dia  Camp. Central - Camp. Serón 
Dist: 13,7 km
Tempo: 2h45'
 
Asc: 220m 03/12 - 3º dia  Camp. Serón - Camp. Los Perros 
Dist: 31,9 km
Tempo: 6h49'
 
Asc: 825m 04/12 - 4º dia  Camp. Los Perros - Camp. Grey 
Dist: 17,9 km
Tempo: 5h07'
 
Asc: 929m 05/12 - 5º dia  Camp. Grey - Paina Grande - Camp. Central (transporte)
Dist: 12 km
Tempo: 3h30'
 
06/12 - 6º dia  Camp. Central - Mirador Britânico - Camp. francês 
Dist: 35,8 km
Tempo: 7h44'
Asc: 1752m

07/12 - 7º dia  Camp. francês - Camp. Central

Dist: 16,7 km

Tempo: 3h46'
Asc: 559m
 
 
Agradecimentos:

"Viajar es desaparecer, una incursión solitaria por una apretada linea geográfica hacia el olvido".

El Viejo Expresso de la Patagonia Paul Theroux