Ano passado, assisti ao documentário "The Barkley Marathons" no Netflix e fiquei impressionado com o "style" da prova. O organizador cobra como inscrição um casaco e uma placa de carro. Para certificar que cada atleta passe pelo percurso delimitado, há livros estrategicamente posicionados para que seja arrancada a página correspondente ao numeral do corredor. Ao final, as páginas são conferidas. Quando alguém resolve abandonar a prova, um voluntário toca no trompete a "marcha fúnebre" para que todos saibam que esse participante parou. A largada, simplesmente, é dada quando o diretor da prova acende um cigarro. Curiosamente, apesar de um percurso duríssimo, a competição tem um clima extremamente familiar e altruísta. Esses detalhes ficaram em minha cabeça desde então.
 
Pouco tempo atrás, um amigo de Palmas me perguntou se eu correria a "Corta Mato", em Brasília. Sem saber do que se tratava, esmiucei o respectivo site para me inteirar e acabei encontrando a "Barkley Marathons" no quintal de minha casa!
 
Em meio a uma época tão carente de amizade e respeito, cativou-me de imediato o espírito familiar da Corta Mato Survival Run. 
 
 
As curiosidades dessa competição começaram logo no simpósio técnico - realizado em um mini castelo no Parque da Cidade. Em meio às explicações sobre o percurso, o diretor da prova (Frank Ned) fotografava cada atleta portando o número de competição, como se estivesse sendo "fichado"! O kit do atleta, que era retirado de uma mala aberta no chão, continha a camiseta da prova, o número, duas pílulas de purificação de água, uma paçoca e uma língua de sogra!
 
Exatamente às 05:00 horas do dia 16 de julho, em uma região rural próxima a Brasília, fazendo 10º C, 35 pessoas largaram para a 3ª edição da Corta Mato Survival Run. 
 
Logo nos primeiros quilômetros, percebi o que encontraria durante a prova. Um single track longo e inclinado nos guiou até a parte mais alta do percurso, local em que iniciamos um verdadeiro "corta mato". 
 
 
Por quase 2 quilômetros, cruzamos o cerrado sem trilha, apenas seguindo os pedaços de fitas zebradas penduradas nas árvores. Tarefa quase impossível no breu da madrugada. 
 
Após inúmeras tropeçadas, finalmente retornei à trilha, desta vez descendo de volta para o vale. O controle de passagem pelo percurso é feito exatamente igual na Barkley Marathons, ou seja, com páginas de livros. Cada atleta é responsável por si próprio (em todos os sentidos!) e deve rasgar do livro a respectiva página de seu número de peito.
 
No primeiro ponto de checagem, me deparei com a CLT (Consolidação da Leis do Trabalho) pendurada em uma árvore no cume de um morro. Aproximei-me e procurei a página 9 (meu número). Sem muito tempo para entender um pouco mais das leis trabalhistas, rasguei e dobrei a página 9 e segui adiante.
 
 
 
Cruzando por trilhas e riachos belíssimos, acabei me esquecendo do frio da madrugada. Por volta do quilômetro dez, alcancei o cume do terceiro morro da prova, de onde apreciei um início de alvorada espetacular. Alguns passos adiante, encontrei o segundo ponto de checagem. desta vez rasguei a página número 9 do Código Civil Brasileiro.
 
Alguns minutos a mais e eu já me encontrava de volta ao fundo do vale. Correndo por uma trilha fechada, na expectativa de chegar ao leito de pedras de um riacho por onde correríamos, dei de cara com meu irmão, que também fazia a prova. Sem pensar muito, concluí: um Manzan havia errado o percurso! 
 
 
Após debatermos um pouco, preferi acreditar que eu estava certo. Convenci meu irmão a retornar e seguimos na prova, cada um em seu ritmo. No leito do rio, deparei-me com um crânio de boi pintado de vermelho. Apesar da macabra sinalização, vi que estava na direção certa! Feliz por mim e triste por meu irmão, dei continuidade a minha prova.  No último ponto de controle, rasguei a página nove de um guia prático de photoshop. Saímos das leis para a fotografia!
 
 
Cinco quilômetros depois deste ponto, eu cruzava a linha de chegada; ou melhor, a fogueira de onde havíamos largado 2h10' antes, local em que encontrei apenas um cavalo arreado e um cobertor que, certamente, um corredor deixara antes da largar. 
 
Não havia staffs. Não precisava mesmo. Ninguém estava lá querendo saber posições ou parciais. O objetivo de todos era um só: trocar impressões e percepções de um dia espetacular na trilha. O que de fato aconteceu. 
 
Enquanto esperava meu irmão e dois amigos de Palmas finalizarem a prova, fiquei observando a feição dos que chegavam; olhos brilhando e um sorriso largo nitidamente demonstravam a satisfação em ter passado por aquela experiência e ter completado o exigente percurso.          
 
Atleta rasgando o Código Civil Brasileiro!
 
 
 
 
Após a prova, observando as três páginas nove arrancadas, tive a curiosidade de ler o conteúdo de uma delas. Entre outros artigos, na página nove do Código Civil Brasileiro constava: 
 
Art. 11. Com exceção dos casos previstos em lei, os direitos da personalidade são intransmissíveis e irrenunciáveis, não podendo o seu exercício sofrer limitação voluntária. 
 
Oportuníssimo!                    
 
 
Agradecimentos:
Frank Ned