Road Trip Centro-Oeste e Sudeste do Brasil - maio/2018

      Quem nasceu em Brasília antes dos anos 90, sabe que viajar de carro era algo corriqueiro. Desde que nasci, realizei diversas “road trips” sem saber. Ia para a fazenda de meus avós passar férias sempre de carro. De ônibus, era um pinga-pinga interminável. De avião, inviável. O jeito era tentar me acomodar sobre meu travesseiro encardido e babado e me distrair com a monótona paisagem do Planalto Central. Centenas de quilômetros depois, eu chegava ao destino; amarrotado, suado, fadigado e fedido. Apesar desses detalhes, adquiri um enorme fascínio por viagens de carro, as famosas “road trips”. Demorou um bom tempo até que eu caísse na estrada com meu próprio automóvel. A sensação de elaborar um trajeto, selecionar as músicas para a viagem, preparar os petiscos e botar o pé na estrada é indescritível. Tem que fazer pra entender. Independente do prazo, a experiência de viver uma vida temporariamente nômade e autônoma te permite observar e, por vezes, incorporar diversos conceitos, estilos, manias, artimanhas e valores.     

      No mês de maio, havia programado fazer duas competições importantes: o Xterra de Ilha bela (triathlon cross country) e o Cipó Cup (prova expedicionária de mountain bike pela região da Serra do cipó). Havia um intervalo de duas semanas entre as duas provas, o que me dificultaria na logística de ir e vir duas vezes. Diante disso, me veio a ideia de realizar uma road trip encaixando as duas competições e dando um “rolê” pela região entre as duas provas. Alterei minhas férias para o período em questão e fiz um levantamento dos pontos de interesse e atividades paralelas que poderia realizar pelo trajeto (trekking, cachoeiras, locais para treinar e casas de amigos). Por ter a rota estipulada e não saber onde iria dormir, preparei uma logística ousada, tendo em vista o tamanho de meu carro. Bicicleta e outros equipamentos deveriam se encaixar em meio aos escassos espaços do jipinho. À noite, o interior do carro se transformaria em dormitório. Para a viagem, removi os bancos traseiros, o que, com o deslizar do banco do passageiro para frente e o rebaixamento da poltrona ao máximo, formava uma bela cama para uma pessoa com 1,69 metros. Tudo muito bem acondicionado e organizado. No carro se encontrava tudo o que eu precisaria para comer, dormir, tomar banho, ler e relaxar. Em relação à segurança, restou-me escolher minuciosamente onde pararia o carro para os pernoites. Os locais mais seguros, sem dúvida, seriam os estacionamentos de hotéis e grandes supermercados, assim como os quintais de novos amigos. Para ter um pouco de privacidade a bordo, ao anoitecer, tampava os vidros com isolantes de sol (para-sóis), o que me isolava totalmente do mundo. Quanto à temperatura no interior do carro, tive a sorte de viajar em um período de frio, o que, temperado com o calor gerado por meu corpo, propiciava uma agradável sensação térmica a bordo. Havia também a preocupação em deixar a bike dentro do carro em alguns momentos da viagem. A solução foi tirar as rodas da bike e deitá-la no espaço deixado pelo banco traseiro e cobri-la com o isolante térmico e meu saco de dormir. Dessa forma, para quem olhasse de fora, pareceria que o carro era de uma pessoa desorganizada com trapos jogados no banco de trás. Era difícil suspeitar que embaixo daqueles panos e espumas desordenadas haveria uma bike de competição. Após, um beijo em minha mulher, iniciei minha road trip fugindo do caos suburbano de Brasília optando por uma estrada vicinal. O trecho até Mogi Mirim, minha primeira parada, era bem conhecido. Sem novidades, além das intermináveis fábricas de dinheiro instaladas nas estradas. Deixei quase o mesmo valor pago em combustível nos pedágios. O pior é pagar e rodar por estradas ainda em construção. Definitivamente, é o Brasil que não quero pra mim.

      Foi muito bom encontrar o Ivan Albano e sua família. Sempre bem humorado e receptivo, após um ótimo treino de corrida, colocamos a conversa em dia tomando um bom vinho. Em meio às boas recordações de outrora, ligamos para outro amigo. Menos de dez minutos depois, o “Digão” se juntava aos bons. A conversa boa e saudosa consumiu facilmente cinco garrafas de vinho. E haja risada! No dia seguinte, fiz uma série de natação com o Digão e segui para São Paulo, onde encontraria a animada turma do Núcleo Aventura para um ótimo treino de corrida no Parque do Ibirapuera. De lá, desci a Serra do Mar e peguei a belíssima Rio-Santos, estrada paralela ao litoral que liga essas duas cidades. Apesar da sinuosidade da estrada e dos incontáveis e camuflados radares, vale muito a pena passar pela BR 101. A paisagem é deslumbrante. Cheguei a Ilha Bela dois dias antes do Xterra, o que me permitiu encontrar alguns amigos e até dar uma remadinha na véspera da prova. O percurso do Xterra de Ilha Bela é considerado um dos mais desafiadores e bonitos da temporada. Gosto dessa prova e, sempre que posso, retorno para sofrer um pouco. Acredito muito na vantagem que a experiência dá a um atleta. Competindo há quase três décadas, é natural aprender a fazer força e “tirar o pé” na hora certa. Esse aprendizado acabou me ajudando mais uma vez e terminei a prova em terceiro lugar (1º brasileiro).

      No dia seguinte à prova, despedi-me da Ilha e cruzei o canal em direção à praia de Santiago, onde dois grandes amigos me esperavam para tomarmos uma cerveja gelada. Zé Caputo no comando da churrasqueira e o Alexandre Ribeiro no comando dos copos. Eu não comandava nada. Estava sem condições! Lá pelas tantas, o Zé Caputo “puxou o bico” e foi dormir enquanto eu e o Ribeiro prosseguimos à boa conversa. Excelente triatleta e pessoa, Ribeiro quis me ensinar a jogar carteado. Apesar de ter vencido o jogo, Ribeiro, lesado pela cerveja e sem conseguir raciocinar, anunciou o resultado: “Empatamos, Manza”. 

      Da praia de Santiago, segui para Paraty pela BR 101, onde eu subiria em direção a Serra da Bocaina. No final do ano 2017, realizei uma travessia de caiaque saindo de Paraty e chegando a Santiago. Na ocasião, meu amigo Tiago me deu um apoio fundamental. Aproveitei minha passagem por Paraty para passar um dia com ele. Tiago tem um barco sensacional, o “Gladiador”, com o qual realiza passeios turísticos pelo litoral da cidade. Juntei-me a uma de suas saídas e pude conhecer um pouco mais daquelas águas maravilhosas.

      Na Serra da Bocaina, eu havia planejado dormir no cume do morro “Tira Chapéu”, ponto culminante da região, com 2088 metros de altitude. Após passar o dia dirigindo pelos vales da Serra da Bocaina, cheguei à porta  do parque. Como já era tarde, fiz meu jantar e deitei-me na cama de minha mini casa. Com o barulho da chuva pingando no teto metálico do carro, adormeci rápido. O dia seguinte amanheceu nublado e frio. Como dali seguiria para outra competição na Serra do Cipó, decidi dar uma pedalada pelo interior do parque antes de subir rumo ao pico do “Tira Chapéu”. Em um treino de quarenta quilômetros, conheci as cachoeiras de Santo Isidro e das Posses, além da Casa de Pedra, fora do parque.

      No meio da tarde organizei minha mochila para subir o pico Tira Chapéu. Conversando com o guarda parque, informei minhas intenções e lhe indaguei sobre o percurso até o cume e sobre a permanência do carro na entrada do parque. Depois de detalhar alguns pontos importantes do percurso e de me tranquilizar quanto ao carro, ele me incentivou dizendo:

- Acho que, se você tiver sorte, irá ver onça hoje. Elas gostam da serração!

Tentando não mostrar minha apreensão com o comentário, despedi-me e segui, desolado, pensando na bendita onça. Ao me aproximar do trecho fechado da trilha, procurei um pedaço de pau e segui atento. Não saía de minha cabeça a possibilidade de dar de cara com ela. Temendo por isso, a cada cem metros eu soltava um grito para espantar a danada:

- Oooouu! Saaaaaii!   

A noite caía e, a partir de então, minha navegação ficou por conta do GPS. Não conseguia distinguir os traços dos morros ao redor. Com duas horas e meia de caminhada, o GPS acusou a aproximação do cume. Por conta da serração, pude observar apenas um breve dourado do por do sol por entre as nuvens. Ao menos não chovia. Montei rapidamente minha barraca ao lado de uma grande pedra e me pus a pensar se ali seria um local de interesse de alguma onça. Dei mais alguns gritos para “marcar meu território” e cerquei minha barraca com galhos secos que encontrei no chão. De posse de um pedaço de galho pontudo, iniciei o preparo do jantar. Ao ferver o macarrão, o cheiro do tempero empesteou o ar. Logo observei o chamariz de onça que havia preparado. Decidi finalizar o cozimento assim mesmo. Morreria mais feliz com a barriga cheia!

      Apesar do cansaço do dia, foi difícil pegar no sono. O fato de estar sozinho em meio a lugares isolados e inóspitos aguça muito a imaginação. É comum ficar divagando situações indesejadas. Violência e a maldita onça não saíam de minha cabeça. Contudo, o friozinho que fazia me fez encolher em meu saco de dormir e pensar no dia seguinte. Havia acertado o despertador para às 05h40m, logo antes do nascer do sol. Presenciar o raiar do dia no topo de uma montanha não tem preço. Além da beleza única desse momento, a energia que se recebe é incalculável. Fazia nove graus, mas nem percebi. Sentei em uma pedra alta e assisti abestalhado ao espetáculo; os primeiros tons lilás no céu, o lento clarear do ambiente, o infinito tapete de nuvens cobrindo tudo abaixo de alguns picos de morros. Mais parecia um mar com pequenas ilhas flutuando. Ao norte, eu avistava a imponente Serra da Mantiqueira. Aos poucos o dia clareou totalmente. Era hora de desmontar o acampamento e seguir viagem. Sem onça e feliz, após duas horas de caminhada, estava de volta à entrada do parque, onde organizei as tralhas dentro do jipe, tomei um banho na pia do banheiro e toquei para a casa do Frederico Zacharias em Juiz de Fora. Passei três dias treinando e dando risadas com antigos amigos nessa cidade. É impressionante como o tempo não muda uma boa amizade independente da distância.

 

      Dois dias antes da competição na Serra do Cipó, dirigi-me para o local onde seria dada a largada. Ao sair de Juiz de fora, percebi a aglomeração de caminhões no acostamento da rodovia. Conhecendo o país em que vivo, imaginei que não seria boa coisa. Logo me veio à cabeça um protesto. Passei por Santos Dumond, Conselheiro Lafaiete, Congonhas e outras cidades ao longo da BR-040. Todas lotadas de caminhões parados. Fiquei imaginando em qual ponto eu seria travado pelo protesto. Por sorte, cheguei a Serra do Cipó ao final do dia. Antes de subir a serra, parei para comer algo no vilarejo do Cipó. Ainda havia metade de meu tanque com combustível, mas, sem um motivo específico, resolvi completa-lo. Seriam apenas dez quilômetros do posto até o local da largada.

      O Cipó Cup é uma prova de mountain bike de cinco dias, realizada em etapas de sessenta a cento e vinte quilômetros. Fora a considerável quilometragem, havia a dificuldade técnica e altimétrica da região. Para aliviar esses percalços, pudemos contar com um belíssimo visual de montanhas composto pelo bioma cerrado. Iniciamos a prova com uma etapa de 25 quilômetros. Apesar da pouca quilometragem, o ritmo imposto foi intenso. Praticamente uma hora de esforço extremo; coração na boca o tempo todo. Na segunda etapa, seguimos em direção ao “Rasgo da Égua”, local com um cânion enorme em frente à chegada. Percorremos setenta quilômetros de difíceis trilhas apimentadas pelo tempo frio e nebuloso que nos acompanhou durante o dia. Faltando cinco quilômetros para a chegada, despencamos por uma trilha muito técnica e perigosa. A neblina cobriu a paisagem o dia todo. Só enxergamos o vale do “Rasgo da Égua” quando baixamos para a cota 800. Para o dia seguinte, teríamos cento e vinte quilômetros de trilhas e subidas intermináveis. O organizador da prova ainda sugeriu que cortássemos parte do percurso para não terminarmos a prova à noite. Porém, o orgulho da maioria insistiu para que mantivéssemos o plano inicial. Ainda tentando convencer os participantes a diminuírem o percurso, o organizador alertou sobre uma greve dos caminhoneiros em andamento no país inteiro, fato que poderia interferir no abastecimento dos carros da organização. Logo me lembrei dos caminhões que havia visto na BR 040 e me dei conta da roubada que estava por vir.

       Decidido pelo percurso original, largamos para o terceiro dia de prova. Posso dizer com propriedade que foi o dia mais sofrido que tive até hoje. Subidas íngremes e longas, tempo frio, falta de reposição (abastecimento), dificuldade de navegação e progressão lenta. Sentindo o peso da encrenca que viria, dosei desde o início a intensidade com que faria o percurso, calculei minha ingestão calórica frente ao grande desgaste que teria e caprichei em minha navegação. Ao final de quase nove horas de prova, terminei a etapa em segundo lugar, atrás apenas de um italiano. Exausto, fui para a pousada me alimentar e me recompor enquanto a prova continuava. Era preocupante a situação de grande parte dos participantes. Sem comida suficiente, roupas específicas e lanternas, ficaria complicado encarar a noite que caía. Aos poucos, os sobreviventes do Cipó Cup iam chegando. Todos nitidamente “estragados”. Aproximadamente às 22h00min, o último atleta chegou e o organizador, enfim, respirou aliviado. Era nítido que seria impossível dar continuidade à prova no dia seguinte, tendo em vista a avançada hora que os últimos haviam completado a etapa. Com todos reunidos, fomos informados que a prova seria finalizada naquele ponto, por conta da maldita greve dos caminhoneiros, o que havia, literalmente, parado o Brasil. Até aquele momento, estávamos sob o privilégio da ignorância.

      Tomando consciência da situação, cada atleta tentava esboçar seu retorno para casa. Os que moravam nos arredores do local não tiveram muitos problemas. No meu caso, contando com o acaso de ter enchido meu tanque antes da prova, ainda faltariam quase trezentos quilômetros até Brasília. Com as informações sobre a escassez de combustível nos postos, ponderei meu retorno e decidi não arriscar. Recordei-me de uns parentes que moravam em Lagoa Santa (cinquenta quilômetros do Cipó) e decidi fazer uma “visita” surpresa. Por três dias, monitorei a situação caótica que se encontrava o país. Sem perspectivas de normalização, liguei nos postos ao logo da BR 040 e indaguei sobre a possibilidade de reservarem alguns litros de gasolina para quando eu passasse. Sem exceção, todos os contatos foram em vão. Não havia o que fazer, além de aguardar. No quinto dia de greve, alguns postos foram abastecidos, gerando filas absurdas. Apesar de ter o tanque quase cheio, eu precisava sair com alguns galões suplementares. Diante disso, saí pelos postos tentando comprar gasolina de quem havia abastecido. Após muito custo, encontrei um oportunista de plantão e comprei vinte litros de gasolina por módicos trezentos reais (R$15/L!!). Isso mesmo! Somos um povo extremamente oportunista e individualista. É muito triste não poder contar com os outros em situações difíceis. E é assim que a grande maioria de nós brasileiros é, infelizmente.

      Horas depois, Na BR 040, com a proa de meu jipinho apontada para o noroeste, eu seguia em direção à minha casa. Refletindo sobre os dias que havia passado “sobre rodas”, recordei-me dos maravilhosos lugares por quais havia passado, das pessoas sensacionais com quem havia convivido, das dificuldades e temores enfrentados, e, sobretudo, dos prejuízos causados pela greve dos caminhoneiros. É impressionante como o Brasil é um país de extremos; um lugar belíssimo, com clima perfeito, pessoas alegres e recursos naturais abundantes. Despencando a balança para o outro lado, temos uma corrupção fervilhante e pandêmica e uma falta de educação e de respeito inacreditáveis. Já há algum tempo, penso muito na possibilidade de deixar esse lugar ímpar e tentar me estabelecer em um local um pouco mais justo, sensato e calmo. Não tenho planos concretos, tampouco certeza sobre isso, mas anseio por novos ares. Por isso, enquanto não fixo residência, viajo sempre que posso.  

 

          “Quando o vírus da inquietação começa a se apossar de um homem impulsivo, quando a estrada que parte do Aqui aparece larga e reta, com mil promessas deslumbrantes, a vítima deve, antes de tudo, buscar dentro de si mesma uma razão aceitável e suficiente para seguir adiante. Para o vagabundo irrecuperável, isso não apresenta a menor dificuldade: ele possui um vasto jardim de boas razões para colher. Em seguida, o indivíduo deve planejar a viagem no tempo e no espaço, escolher uma direção e um destino. E, por fim, deve complementar todos os detalhes dela.”

                John Steinbeck – Viajando com Charley

             

    

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